Música, livros, filmes e o lugar
- 30 de jun. de 2020
- 3 min de leitura
Na Arquitetura e Urbanismo, o conceito de lugar é amplo e envolve, mais que as características físicas de espaço, a relação das pessoas com o ambiente (construído, no caso), as experiências decorrentes desta interação e a percepção desta vivência.
Já tinha uma especial atração por livros e filmes nos quais o lugar é também um personagem ou o centro das atenções. Onde os espaços são parte da história, ajudam a construir a trama ou dar o tom. Há pouco me dei conta de que na música isso também é possível.
Sou muito fã do Vitor Ramil, um grande músico (e poeta, pra mim) gaúcho. Não tinha reparado antes, mas percebi que em várias músicas dele o lugar aparece. Seja os pagos gaúchos, a cidade de Porto Alegre ou Pelotas, as ruas, a casa... é lindo demais. Eu escuto e me "transporto". Olha só:
"Onde as ruas querem se perder
E as esquinas querem se encontrar
Satolep Fields Forever
Satolep Fields Forever
Corredores
Soltam tua voz
E te fazem levitar
Em Satolep Fields
Os telhados
Correm sob o céu
Prometendo te guardar
Em Satolep Fields"
"Quarto de não dormir
Sala de não estar
Porta de não abrir
Pátio de sufocar"
"Ruas molhadas, ruas da flor lilás
Ruas de um anarquista noturno
Ruas do Armando, ruas do Quintana
Nunca mais, nunca mais"
Esses são só alguns exemplos. Recomendo pra quem não conhece dar uma escutada. E pra quem conhece, presta atenção nessa poesia toda! ❤
Agora falando de livros e filmes, acho que muito já foi escrito a respeito, por haver uma relação mais usual e evidente. Então vou só dar uma comentada em alguns que gosto muito e me ocorreram ultimamente.
Uma escritora que adoro é a Carol Bensimon. Ela fala muito sobre o lugar, a cidade e a arquitetura e urbanismo. Já escreveu crônicas sobre Porto Alegre, que acabaram reunidas no livro Uma Estranha na Cidade. Os cenários de seus livros costumam ser descritos com riqueza de detalhes e importam muito. Mais que ambientar as histórias, eles as contam. E em 2018 ela publicou um artigo maravilhoso contando sobre um apartamento da família dela no centro de Porto Alegre.
Outro escritor que admiro bastante e em cuja obra a cidade é quase protagonista, é o espanhol Carlos Ruiz Zafón. Barcelona de décadas passadas é a estrela de uma quadrilogia que inicia com A Sombra do Vento (o melhor de todos, na minha opinião). A cidade, seus bairros, prédios e lugares únicos são retratados com maestria ao desenrolar das tramas. Recomendo muito a leitura.
E tem ainda o Paul Auster e seu eterno Brooklyn. Eu gostei tanto de Sunset Park que depois de ler fiz questão de ir conhecer o bairro e o parque, e cheguei a me sentir "em casa"!
Claro que todos os filmes também têm cenários e locações, e por sua vocação visual estes sempre aparecem de alguma maneira, diferentemente dos livros e músicas onde não necessariamente, a menos que haja intenção por parte do autor. Mas em alguns filmes o lugar é um tipo de personagem ou acaba ganhando importância na história.
Lembro agora do recente e icônico Parasita (2019), onde duas casas, dois bairros, duas paisagens, mesmo estando próximas (em uma mesma cidade) representam dois mundos muito distantes. Praticamente todo filme se passa dentro dessas casas.
Também O Homem ao Lado (2009), um ótimo filme argentino, tem como elemento central nada menos que a Casa Curutchet, único exemplar da arquitetura de Le Corbusier na America Latina, e com um humor meio ácido nos faz refletir sobre diferenças sociais e de visões de mundo.
E Mon Oncle (1958), um filme francês que lembro de ter visto quando ainda estudava Comunicação, um clássico onde a estética e o estilo de vida modernista, que começava a surgir, é questionado com bom humor e sensibilidade.
E você, tem alguma dica desse tipo pra compartilhar? Vou adorar!





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